segunda-feira, 15 de setembro de 2014

De Segunda à Sexta

O despertador amanheceu tocando
E os meus olhos amanheceram fechados
Tão pesados que já não conseguem,
não querem se abrir
Carregando todos os dias
mais do que podem suportar
As pernas vacilam
Os pés tropeçam
As mãos escapam
E é sempre igual,
O dia começa e termina
Tão rápido
como num ritual
A rotina destrói
Aprisiona
E corrói
É a velha tragédia dos comuns
E as horas dançam com alegria
É possível que eu não aguente
Até o fim do dia.

sábado, 7 de junho de 2014

Essa minha mania de me afastar pra tentar te fazer voltar,
nada mais é do que medo de te enfrentar.
Meu bem, eu já nem sei,
mas eu ainda quero cruzar o teu olhar, nem que eu tenha que esperar
porque você é o meu vício
desde o início
não vá deixar isso acabar.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Me diz então
Qual é a sensação
De finalmente encontrar um peito
Pra poder descansar.

Me conta como foi que de repente tudo pareceu se encaixar
No seu devido lugar.

Ah, a sua vida agora tem cores!
Esqueça os outros amores,
não pense nos dissabores.
Viva apenas pelas flores
que lhe nascem pela alma.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas;
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

Ferreira Gullar

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"Mas como eu posso seguir em frente, se as suas impressões digitais ainda estão no meu coração, e a sua voz ainda ressoa até os meus pés e o seu sorriso vive nos meus olhos e toda vez que a minha mente viaja, ela vai diretamente até você?"

Autor desconhecido

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Presságio

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa